IGARAPÉ DO NEMA, nosso pequeno-colosso e a ingratidão antrópica

24/03/2013 16:09

                                               

A terminologia "Nema" é uma variante do termo árabe "NAIMA", e significa "trabalhador incansável". Assim, o Igarapé do Nema continua a trabalhar incansavelmente para alimentar o povo arariense. Mesmo com a ingratidão ignominiosa desse povo que necessita desse suntuoso pequeno-colosso, que só nos faz o bem. Com o pouquinho de sensibilidade podemos observar que o Nema não precisa do homem, mas o homem necessita, depende, dele para sobreviver. No entanto, mesmo sabendo disso, o homem não cuida não protege e, nem sequer, contempla a sua natureza.

Geograficamente, pouco se sabe sobre o Igarapé do Nema, no tocante à extensão do seu curso e local onde nasce. No entanto, o professor universitário, médico e membro da Academia Arariense de Letras, Artes e Ciências – ALAC – Dr. Antonio Rafael da Sillva – disse certa vez em um evento acadêmico que: “o Igarapé do Nema nasce no município de Miranda do Norte”, e que ele (Rafael Silva) teria constatado isso in loco. Contudo, em entrevista informal com antigos moradores de Arari e pescadores do Nema, nenhum dos entrevistados confirmou tal informação. Cientificamente, não podemos corroborar, ainda, o verdadeiro local da nascente do Nema.

Sabe-se, em suma, que o Nema corta toda a planície inundável que forma o lendário Lago da “Morte”, passando pelo centro da cidade de Arari, dividindo-a desse modo em duas partes, e desagua no Rio Mearim, onde há uma ponte que atravessa o Igarapé, unindo a parte mais “alta” da cidade com a parte mais “baixa”.

O Igarapé do Nema no passado foi um dos igarapés mais piscosos de Arari. Facilmente poderiam ser pescados peixes pretos (traíras - Hoplias malacaricus;  jejus - Hoplerythrinus unitaeniatus); e carambanjas - Heros severus); curimatás (Prochilodus sp.); durante a piracema, após ser construída a tapagem; aracus (Schizodon vittatus), capadinhos (Trachelyopterus galeatus); jandiás (Rhandia quelen); piaba (Astyanax bimaculatus); piranha (Pygocentrus nattereri), etc. Uma fartura piscosa, florística e faunística exuberantes. Hoje o Nema está praticamente assoreado, sua vazão não supera os 0,86 m3/s, uma vazão baixíssima para a grandeza de um igarapé como o Nema. A mata ciliar está bastante desmatada; e sofre constantes agressões antrópicas, sobretudo devido a agropecuária realizada às suas margens. A quantidade de peixes, hodiernamente, é ínfima. Os exemplares pescados são pequenos, e a quantidade mingua ano a ano.

Na parte que corta a sede do município observa-se um cenário de poluição intensa, o crescimento desordenado da cidade, com a consequente criação de bairros às margens do Nema, é uma ameaça visível ao futuro do igarapé. Um enorme esgoto urbano tem seus dejetos e efluentes lançados diretamente em seu leito, causando sua morte dia após dia. Outra questão lamentável e preocupante é o descaso da população marginal com o Igarapé. Pode-se ver, diariamente, pessoas jogando os mais diversos tipos de lixo (embalagens plásticas, animais mortos, vísceras e ossos de gado, etc.) nas águas do Nema. Além de tudo isso, há inúmeras moradias que margeiam o Nema que não possuem fossas sépticas e, portanto, as fezes humanas são lançadas diretamente no leito do igarapé. Pois há inúmeras latrinas à beira do mesmo. Além da ação antrópica insana, da prática ilegal da agricultura e da pecuária nas margens, que levam, consequetemente, a impactos ambientais desastrosos, a construção de duas barrgens no Igarapé do Nema; uma construída no final da década de 1980; e outra no final da década de 1990, contribuíram para o seu assorreamento. Na foto acima, pode-se observar o quão intenso está o entupimento do Nema. Enormes bancos de sedimentos acumularam-se nas margens e no leito. O Nema está muito mais raso e estreito.

Certamente, depois do Rio Mearim, o Igarapé do nema é o nosso maior patrimônio. Hoje o Nema é também a ratificação do descaso dos ararienses  com a natureza que nos cerca e que nos mantém ainda vivos.  Mesmo sucumbindo dia após dia, o Igarapé do Nema continua a alimentar várias famílias de Arari com peixes pequenos, que não têm chance de crescerem, porque não há condições ambientais salutares para isso. Por que há tanto desprezo com aquilo que nos faz bem, que nos dá a vida?

 


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